Mais que nunca, é preciso ser brasileiro

Muita coisa faz sentido quando olhamos a situação do país. Não há novidade, há representatividade de fato: e o Brasil possui um fosso ético que divide e causa uma dicotomia que é muito bem utilizada pelos políticos profissionais. O povo brasileiro, em sua grande maioria, ainda é feio, tosco, sofrido, mesmo que tenha ascendido socioeconomicamente e considere ser direito fundamental celular novo e rolé no shopping, por isso distante da imagem de um padrão agradável. Quando Ciro Gomes afirma que "no Brasil o povo detesta que o seu presidente seja como o povo é", faz parte da inaceitação de sua própria essência, que nega competências que venham, por exemplo, de Cuba ou da África, mas aceitam qualquer bosta, desde que seja europeia ou norte-americana. Não é a toa que o apoio em relação ao golpe que estamos sofrendo venha de países latino-americanos, especialmente.
Eu já ouvi, de pessoas maravilhosas (e que eu respeito muito) coisas do tipo "você agora é mestre (professora universitária, ou tem 50, ou qualquer outra titulação que me impute um status simbólico de pseudo superioridade) e não pode ser/fazer assim/isso". O que nos faz ser o que somos não é o que aparentamos, mas nossa essência e a consequência dos nossos atos e, quanto a isso, sinto-me confortável em todas as minhas conquistas.
Enquanto não entendermos - coletivamente - o que somos de verdade estaremos sempre sujeitos a falsos bom-mocismos, negando nossa força e capacidade de transformação, pessoal e coletiva.
O Brasil é um país deprimido, traumatizado e mal resolvido. Vive em crise, enganando sua patologia em samba, suor e cerveja (e na ilusão de grandeza), preso numa retórica esquizofrênica de paraíso na terra, alimentando a situação cômoda de maniqueísmo e sebastianismo sem fim, escravo da alegria que não possui.
Aceitemos nossa condição e imperfeição como o nosso melhor, pois, normalmente, os mais competentes em se mostrar perfeitos e heroicos são os que empurram tudo no abismo. O que precisamos é corrigir os erros, não delegar as soluções a imagens construídas, a fantoches, a salvadores-da-pátria! Tomar o poder, o protagonismo, os nossos caminhos, sem medo de errar, pois, querendo acertar, já se fez muita bobagem nesse mundo.

O primeiro!

Foto de Celma Chaves
Acabo de retornar de Manaus, onde fui participar de um evento. Tinha me prometido não participar de eventos, produzir artigos e fazer comunicações este ano nesse formato: é extremamente desgastante, em vários níveis. Mas como não participar desse tipo de discussão, da oportunidade ocorrendo aqui no pé da gente? E para que servem as promessas, senão para alimentarem nossa fé em mudanças? Pois é, mudei! E fui.
Queria conhecer ao vivo pessoas que já conhecia e respeitava por contatos virtuais, há tempos, como Patrícia Orfila (UFT) e José Alberto Tostes (UNIFAP), além do recém-inserido Marcos Cereto (UFAM) e renovar o contato com a Celma Chaves (UFPA).
Para isso me usei do artifício que mais gosto: levei trabalhos de alunos (uma orientanda e um grupo) sobre a temática. Helena Borges está com um trabalho interessantíssimo que propõe fazer uma Avaliação Pós-Ocupação (APO) de uma obra do Severiano Mário Porto, a Escola Estadual Gonçalves Dias, daqui de Boa Vista/RR. O grupo, composto por Almerízio, Aramuru, Caroline e Daniel, fizeram um artigo, apresentado na disciplina de Teoria e História da Arquitetura e Urbanismo, trabalho de compilação e análise de quatro edificações datadas de 1970 a 2000, baseado em trabalhos anteriores da mesma disciplina, desenvolvido por outros grupos.
Portanto, embora tenha viajado sozinha, me senti cercada de tanta gente boa que esse astral só atraiu coisas boas também.
Hugo Segawa, José Carlos Bonetti (UFAM), Felipe Melo (UFRR) e um auditório cheio de conhecimento e massa crítica.
Outra grata surpresa: José Afonso Botura Portocarrero
E o que foi o I Seminário de Arquitetura Moderna da Amazônia/I SAMA, para mim:
Possibilidade de reencontros: de pessoas, de ideias, de sonhos, de vontades, desejos de fazer;
Realização: de um evento, com qualidade indubitável (sob a chancela de Hugo Segawa: quem não esteve não consegue conceber o que é ser arguido por seu olhar) de trabalhos e nível de conversas;
Perspectiva: expressa no envolvimento de todos, que apontava para o futuro, sempre, quer na presença efetiva dos discentes da UFAM, quer no olhar renovado dos docentes, e mesmo pelo espraiamento geográfico (quase todos os estados da Amazônia Legal, exceto Maranhão, Acre e Rondônia, estavam efetivamente lá) de um evento que nasceu para ser grande e que foi como o "less is more" de Mies van der Rohe!
Responderia Frank Lloyd Whight "apenas se o 'mais' é demais" portanto, o desejo de continuidade da discussão sobre a preservação e linguagem da Arquitetura Moderna Amazônica (ou simplesmente Arquitetura e Urbanismo) terá prosseguimento, em Palmas/TO, ano que vem, com a intenção declarada que em 2018 seja na Serra do Navio/AP.
Encerramento e lançamento da campanha em defesa do acervo arquitetônico de Severiano Mário Porto #SalveVilaBalbina



Obrigada Marcos Cereto por ousar fazer. Obrigada Perpétua Almeida Barbosa por me convocar a colaborar minimamente nisso. Obrigada a todos que realizaram, de forma objetiva ou subjetiva, o cenário que se construiu.

Esse evento alimentou almas, ao menos a minha!

A fábula de um corpo aprendiz - parte 2

A bailarina, que fez de seu corpo seu ofício, buscou corrigir suas marcas, contudo não podemos, quase nunca, voltar atrás nas consequências de nossos gestos, mesmo que sejam de leveza e arte. Algumas marcas não são fáceis de corrigir, mas no corpo aprendiz também se forjou a vontade de apaixonar os outros com a arte da dança. Aprendeu a aprender para ensinar, e se tornou boa também nas mirabolâncias da vida de professora, que exige conhecimento, força e criatividade.
Novos palcos esperavam essa ninfa, como fora um dia o caminho que sua mãe teve que seguir, deixando o teatro por danos na voz. A bailarina com joelho doente, filha da atriz com cordas vocais frágeis tinham algo, mais que genético, que as unia: acreditar na arte. Quem acredita no que faz, busca formas sempre de continuar a ser o que na essência nunca deixará de ser. E buscaram.
E esses corpos aprendizes, em constante mutação, se reelaboram e reinventam formas de superar suas limitações, frustrações, distâncias de afetos; transformando o mundo, constroem novos palcos, onde seus talentos brilharão.

Em defesa do patrimônio vivo

Recebi há pouco a notícia que a presidente da Associação da Cidade Velha (CiViva), Dulce Rocque, está se sentindo assediada e ameaçada por sua postura como cidadã em defesa da cidade de Belém, especialmente em relação à proposta de intervenção no Ver-o-peso e quanto à ocupação da faixa da orla de Belém por grandes empreendimentos imobiliários.
Dulce Rocque é uma militante em vários segmentos, mas, depois de seu exílio no período da ditadura, retornou para Belém e, como moradora da Cidade Velha, vem sendo atuante em vários momentos e discussões sobre as questões da cidade. A denúncia foi feita pela própria, em rede social, a qual não quis expor maiores detalhes, mas, por conhecer pessoalmente seu perfil e integridade, não tenho motivos para duvidar de seu temor.
Lembrando-me de uma frase do Teixeira Coelho:
"Barbárie não é necessariamente gritos e sangue jorrando. Pelo menos, não no começo. Outro nome para a barbárie é a indistinção. Quando uma época não conseguir distinguir entre uma coisa e o seu contrário, essa é uma época de barbárie."
Para quem não sabe o que está ocorrendo em relação ao Ver-o-Peso (embora hajam capítulos posteriores a isso, não menos grotescos) acompanhe nesse link.
Quando uma cidadã se sente insegura em relação às estruturas públicas, às forças econômicas, quando o direito de expressão de uma sexagenária é ameaçado covardemente, simplesmente por ter opinião e por conduzir questões de ordem coletiva à discussão pública ou à instâncias que devem zelar pelo coletivo, como o Ministério Público, quando os órgãos e funcionários se escondem em mirabolâncias de marketing para, em sua fragilidade, rebaixar  ao nível delas a discussão, atropelando o acordo social, a lei, as relações humanas... Há muito não tenho como duvidar que já chegamos à barbárie. Alguém precisa gritar que o rei está nu! Dulce faz esse papel.

[aviso aos incomodados que esse texto que acabo de postar no meu blog é a cópia do e-mail encaminhado ao grupo do ICOMOS-Brasil: somos muitos, muito mais que possam pensar]

De onde vem o tiro

Já faz parte da minha história de vida ser mal interpretada. Talvez seja algo kármico, talvez seja algo no meu tom de voz ou no modo de agir, mas, quanto mais o tempo passa, mais me consolida a hipótese que, simplesmente, sou acometida, às vezes, do convívio com pessoas mal intencionadas.
Não estou com isso eximindo-me de erros e atos falhos, mas também não posso crer que o meu mundo seja composto apenas de pessoas de bom caráter. Sim, os pontos de vista são múltiplos e eu sou alguém que minimamente tenho leitura teórica suficiente para compreender a complexidade do mundo, e civilidade capaz de lidar até com a escória. Isso, talvez, seja a minha grande fraqueza: a de aceitar conviver com quem, definitivamente, dá sinais claros desde sempre, de incapacidade de um convívio social saudável.
Pessoas são más e, algumas, de forma proporcional à sua ambição e vaidade. Estas, que não são más por sua natureza, mas por um desejo consciente, são as piores. Contudo, até vírus minúsculos podem ser extremamente perigosos e, atualmente, tenho colocado estas pessoas em sua devida escala de importância na minha vida: nenhuma. Tenho me tornado imune a pequenezas. Quero coisas realmente grandes, como amigos e oito horas de sono. Tenho conseguido isso graças a anjos que surgem na minha vida, enviados de Deus, que me mostram, sem que eu peça, que estou no caminho certo.
Para cada pequeno verme que cruza o meu caminho, brisas de afetos que me fazem erguer os olhos do chão, onde os primeiros rastejam. Comensais da mesma podridão que vão produzir o adubo da árvore que sou, cada vez mais firme. A questão, como disse uma amiga, é que árvore que dá fruto é a que leva pedrada... Paciência, resiliência e confiança em tudo que acredito é que me mantém em pé, apesar de todas as tempestades que já passei.

No que mudei

Há dias em que tomamos atitudes que levamos para toda a vida. Em pequenas mudanças, vamos deixando de ser o que fomos e passamos a se o que desejamos. Isso é o que acreditam aqueles que creem num processo de constante evolução e envelhecimento, que nos força a sermos cada dia mais responsáveis, duros, sisudos...
Há um senso-comum sobre mim: que eu mudo com muita facilidade. Pessoas costumam se esquecer de mim, também, com muita facilidade e, depois, ao reencontrar, dizer "nossa, como você está diferente!" e isso reforça a teoria da mudança paulatina e cumulativa. Não sei se eu sou tão camaleônica assim, sinceramente. Creio que os meus amigos mais antigos, aqueles que me conhecem há mais de 30 anos, não estranham a Claudia que sou agora. Ao contrário, sei, alguns festejam por entenderem que eu levei muito tempo para ser o que eu já deveria ter sido há mais tempo.
Contudo, nesse ínterim a vida não foi fácil para mim. Tive que me adaptar a pessoas e circunstâncias, pessoais e profissionais, engolir muito cururu, ofuscar e esconder o que eu sempre fui pois, nos lampejos da minha verdade, era tida como arrogante ou mitômana. Não tive testemunhas do meu passado que pudessem me defender e, por longos anos enfrentei sozinha cada pedra e buraco. Sim, sou diferente do que eu pensaria ser aos 50 anos, mas meus amigos me reconhecem; não sou estranha, nem a mim nem a eles, nem aos que tiveram sensibilidade de perceber além da superfície, da casca.
Não pretendo me justificar, não pretendo ser didática sobre a minha personalidade. Uma coisa que realmente desejo com 50 anos é não precisar me explicar para ninguém e ter ao meu lado apenas as pessoas que tiverem a sensibilidade de perceber quem eu sou e, mesmo que não goste, me respeite. Escondo meus cabelos brancos nas tintas, oculto minhas marcas sob a maquiagem e amo quem me veja para além das camadas que não me pertencem. O que sou, transpira, escorre pelos meus olhos, brilha e se apaga. Os gestos são, às vezes, necessários, mas podem ser apenas funcionais ou cênicos. A consequência do que eu faço não sou eu, é o resultado de trabalho, estudo, energia e um pouco de sorte, às vezes.
O que sou não defino, é primordial e imutável. Me acompanha nas memórias teimosas e desejos que, muitas e não raras vezes, são inconciliáveis com a realidade; está num certo azar em fazer escolhas perfeitas e descompassadas; mantém viva minha insegurança e timidez, a despeito de minha coragem já testada e exercitada, quase suicida.
No que mudei? Nada.

Ver-o-Peso, ver o que está visível a todos

Todos sabem que eu não moro mais em Belém, e isso é parte do motivo desse blog estar em ritmo lento de postagens. Belém é um poço sem fundo de problemas, histórias e inspiração para postagens. Aqui em Roraima ainda estou construindo um conjunto de referências que, pouco a pouco me permitem consolidar dados e desejo suficientes para uma postagem, visto que eu não gosto de expor levianamente minha opinião sobre as coisas. Quando eu digo algo, aquele tema já se debateu dentro de mim, já pesou para um lado, para outro... Não me preocupo em guardar as palavras que eu digo, as opiniões que eu tenho, pois elas vêm de dentro de mim, passam por meu filtro ético e, quando saem, devem cumprir o papel das palavras que o vento espalha: já não me pertencem.
Belém ainda é a maior fonte de inspiração para consolidar minhas opiniões, afinal foram quase 25 anos de imersão em seus problemas. Belém também é onde tenho amigos que compartilham suas angústias e se lembram de mim nesses momentos. Foi assim que, observando de longe a questão da proposta para nova intervenção no Ver-o-Peso, tive que comentar algumas postagens no Facebook. A primeira, quando tive acesso à propaganda, a partir de uma postagem do jornalista Ney Messias Júnior onde ele diz que "uns vão criticar. outros vão amar". De verdade, não amei, mas também não iria engrossar o coro daqueles que iriam polarizar a discussão para mais um Remo X Paysandu, então me posicionei, como acredito que deva ser feita uma crítica.
Acho que a oportunidade de discutirmos de forma madura, entre pessoas inteligentes, questões amplas e, especialmente, sobre temas do patrimônio cultural, imperdível. Não é questão de ser chata, mas de tentar elevar o nível da análise.
Aí veio o Tiago Paolelli pedindo minha opinião, e dei. Aproveitei para mandar pra ele as pranchas do projeto do Ver-o-Peso que venceu o concurso nacional promovido pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil, que foi compartilhado pelo arquiteto e professor da UFPA José Maria Coelho Bassalo, como exemplo de método para fazer uma intervenção de grande porte: com pesquisa!
Aí veio a querida Dulce Rocque (que pode me pedir qualquer coisa!) pedindo meu posicionamento: copiei as minhas posições anteriores, ajustei alguma coisa e ela postou no blog da CiViva. Aí as pessoas compartilharam...
E quanto mais vejo a proposta (não me forcem a chamar de projeto!) para o Ver-o-Peso, quanto mais as pessoas me questionam, mais equívocos vejo!
Alguém me questionou sobre minha opinião sobre o Museu do Amanhã (?!):
Sobre o Museu do Amanhã vi menos que possível para uma análise crítica consistente, pois os dados são ricos e a obra em si é bastante complexa e inteligente. Não sei dar opiniões superficiais, mas do que eu acompanhei da vista que fiz à obra, em julho passado, ele é impressionante, como arquitetura, e marcante como elemento dentro da estrutura urbana, qualificando uma área historicamente complicada. Caberia um projeto do Calatrava lá no fim da Doca, como promotor de desenvolvimento cultural para Belém, em vez do terminal de conteiners da CDP que só causam danos ao centro urbano e a seu entorno imediato.
Morei em Belém durante 25 anos, posso dizer que frequentei a área do Ver-o-Peso diariamente, pelo menos, por uns 20 anos, visto que trabalhei com patrimônio cultural por esse tempo. Desta forma me sinto bastante confortável para emitir opiniões sobre o Veropa, mais do que sobre o Museu do Amanhã.
Coincidentemente estive como monitora da exposição de projetos do concurso do Ver-o-Peso, que ocorreu na antiga e extinta Galeria Municipal de Arte (Belém, terra que destrói coisas belas... mais que São Paulo!) e sou capaz de lembrar de detalhes de alguns projetos. Nenhum era pior que o que se apresenta! O projeto vencedor do concurso de 1999 foi premiado, mas também foi discutido e adaptado, afinal, não existe solução perfeita.
Sobre o desejo de transformar o Ver-o-Peso em algo que ele não é: com a implantação do projeto anterior, me lembro de uma brincadeira que fizemos, eu, [e os colegas arquitetos] George Venturieri e André Guilhon em "requalificar os urubus", capacitando-os a um andar mais elegante e dando aulas de segurança alimentar para que não comessem carniça e, claro, fornecendo uniformes brancos para que eles ficassem mais parecidos com garças, que são mais fotogênicas e simpáticas que urubus. Nesta ironia está a crítica de um pensamento primário de gentrificação e exclusão que precisamos combater. O Ver-o-Peso é uma feira livre. Os vendedores são capacitados, dentro de seu nível profissional e detentores de conhecimento muito maior que o senso-comum possa imaginar. Frequentar o Veropa, não como consumidor, mas com olhar etnográfico, é sair feliz e com a alma repleta.
A proposta (que não chamarei de projeto, pois não é) é uma agressão à dinâmica do Ver-o-Peso como espaço de trocas. Cada vez que eu vejo aquele vídeo, encontro mais erros! Os boxes vão matar as dinâmicas de trocas e integração dos "feirantes" (entre aspas, pois vai deixar de ser uma feira, com a conformação proposta) e destruir o status de "maior feira livre da América Latina".
Sobre os degraus da orla: quem conhece a área sabe que ela é sujeita a inundações, especialmente na maré cheia de março. Não dá para tirar os degraus, simplesmente. Uma opção seria aterrar e levantar toda a área central para que aqueles incômodos degraus deixassem de existir.
Entende porque as respostas não são simples e exigem estudo prévio? Isso é dinheiro público, é espaço público, é patrimônio público, e cultural.
Também espero o dia em que o Ver-o-Peso seja melhor, assim como as pessoas que o fazem. Por enquanto, acho que essa proposta piora o que não está tão ruim assim.

Em outra postagem vejo alguém comentando que tem que se tirar os trapiches e pequenos portos da orla de Belém, transformá-la num belo calçadão. Bonito. Só pergunto por onde vai chegar a farinha que é feita pelo caboclo do interior, ou o peixe. Como ficam as culturas de subsistência que abastecem a cidade? As propostas precisam dar respostas às questões, não apenas fazer o bonito.

Outra pessoa questiona a beleza das coberturas. Meu conceito de Belo é mais amplo que apenas oposição ao que é feio, e respondo:

A questão das coberturas atuais é que elas só aparecem em foto aérea (os urubus não se incomodam), elas causam menos impacto ao entorno, tanto em relação ao bloqueio de vento quanto de fluxos.
No caso das lonas tensionadas, garante a iluminação. Quanto à manutenção, isso é um custo que tem que ser previsto em qualquer projeto. Especialmente público.
Tenho certeza que [foi previsto no projeto] sim, mas o projetista não é o gestor público, infelizmente.
Existem dois discursos ocultos nessa questão do Ver-o-Peso: gentrificação e apagamento de memória.
Sobre gentrificação, não vou explicar aqui o que é, mas está bem exemplificado acima.
Sobre apagamento de memória, o Ver-o-Peso é, em seu atual aspecto, talvez a maior e mais eficiente intervenção na área depois da instalação do mercado de ferro. Não foi aleatória, foi pensada, projetada e executada com discussão pública, envolvendo vários segmentos e, de forma ampliada, alcançando outras regiões do Centro e da cidade. Promoveu tamanha auto-estima na população que se aventou a possibilidade de lançar o Ver-o-Peso como patrimônio da humanidade (não sei em que pé está esse processo). A tudo isso, alguns, especialmente os que se incomodam, associam à gestão do prefeito (atual deputado federal) Edmilson Rodrigues: segundo esses, o Veropa é a cara do Edmilson. Pra mim, o Ver-o-Peso é a cara do Ver-o-Peso.
A questão aqui não é se a criança parece com o pai, mas que querem matar a criança porque saiu com a cara do pai, é isso?
Tem gente que acha que isso é pessoal. Tem gente que prefere batata-frita...
O Ver-o-Peso é tombado nas três esferas.
Enfim, só fazem isso se o povo do Pará permitir.

Sobre cubanos

Encontrei essa postagem quase  dois anos depois e tenho a afirmar que a melhor coisa que ocorreu com o curso de Arquitetura e Urbanismo da UFRR nos últimos anos foi a recepção da Drª Tania Gutiérrez.
Na região norte não existem doutoramentos na área de arquitetura e urbanismo e apenas um mestrado. Não sei de onde é o blog e seus autores, mas a realidade da região norte, e de Roraima especificamente, não pode ser comparada com a de outras localidades.
Não sou amazônida nata, não sou roraimense, não tenho vínculo afetivo, mas profissional com essa terra e a UFRR, Falo como atual coordenadora do curso: receber uma doutora formada na Bauhaus é um prêmio! E isso é visível e sensível na formação e mentalidade da maioria dos alunos e no poder de amadurecimento que ela conseguiu plantar nos professores que com ela convivem mais proximamente.
Acompanho os elogios aos professores de Engenharia Elétrica (um deles já fez concurso e se tornou efetivo - não houveram concorrentes à sua altura para a vaga).
Lamentavelmente estão sob o regime de professores visitantes, felizmente são cubanos pois, se fossem brasileiros, tanto a professora Tânia quanto o professor Vítor (Engenharia Elétrica) estariam aposentados no Brasil, por conta de suas idades. E quanto conhecimento ainda têm para compartilhar e quanta generosidade para aprender!
A quem tem medo de cubanos: eles são gente normal, têm sentimentos e amor pela sua pátria, como todos deveríamos ter. 

O tempo

Os anos se passaram, no ritmo normal do tempo, às vezes compassado, às vezes devorando vorazmente a vida, em outros numa modorrenta rotina. Porém passaram.
Entre os anos, os meses, semanas, dias, horas, minutos, segundos, são os instantes, este fragmento incalculável e elástico, os que realmente marcam a passagem do tempo. Quem diz que existem dimensões cartesianas que determinam o mundo e a existência, nunca se atentou para o valor do instante, tão imprevisível quanto uma gema preciosa.
O homem, viciado em seu relógio, sente que o tempo se torna indefinível no quarto de sua amada. A mulher, carrega uma dor infinita salpicada de preciosos momentos luminosos, que mantém o lusco nos olhos e dilata, como um confortável agasalho a lhe abraçar, cega. A velha guarda, vorazmente, as recordações dos anos idos, como testemunhos de um memorial pessoal, sem lhe dar muito sentido. O senhor sistematiza e revê fotos e documentos, construindo uma tessitura de significados que enreda todas as referências, cuja importância não sabe definir. Outro, de prazer iconoclasta, queima no fundo do quintal o que considera velho e não percebe que a velhice também já o compõe. O fogo também queima a alma, de lembranças ardentes que não externalizaram. Outra busca na internet aqueles que julga personagens fundamentais de sua história passada, sem perceber que o tempo, por ser impreciso, também possui espacialidades fluidas e que seus vetores têm sentido imprevisível.
Quem determina ou pode qualificar o valor das memórias? Não há paquímetro ou teodolito que possa servir como instrumento de referência para sua medição. Elas são o ponto onde locamos nossos instantes, elencados e qualificados como fundamentais, pedra e monumento de histórias pessoais que, como todas, poderiam se transformar em livros de romances ou novelas. A memória é a atriz de uma cena que é guardada pelo foco de uma luz pessoal, que transforma o instante em ápice do ato. Contudo, a atriz também envelhece, perde o viço e as forças, desta forma, algumas memórias perdem o sentido, são aposentadas e, se dignamente tratadas, serão mantidas, afetuosamente, até o fim dos dias. Porém haverão os que abandonarão esta, velhinha, no quarto do fundo de suas casa ou levarão ao asilo. Quem quer lembrar dessas memórias-velhas, se tantos outros instantes novos surgem, a ressignificar a existência pessoal, cada dia?

Belém, 400 anos

Há alguns anos atrás, num tempo em que Belém possuía um prefeito que planejava estratégias para o futuro da cidade, foi lançado um projeto denominado "Belém 400 anos", que visava ações que intencionavam apresentar uma cidade digna de sua história quadricentenária.
Foi um período de fé na construção coletiva, na discussão democrática, mas... o poder! A cidade, não seu povo, tinha tal maturidade... E essa velha senhora passou a ser tratada sob a égide de suas potencialidades, não de suas carências; foi explorada como uma velha e demente, uma louca que gritou por algumas décadas por respeito à sua nobreza, em vão.
Poucos foram capazes de amá-la em sua fragilidade. Alguns gritos ecoam, como da Velha Belém, essa louca desesperada, diante dos abutres, carniçais, sombras que se lançam sobre o seu passado sem lhe deixar levantar o olhar para qualquer horizonte. Acuada, a Velha Belém se esconde em algum recôndito da Cidade, agora, como ela, Velha.
Há um tempo morei em Belém, e dela me alimentei a alma e o corpo com desejos e esperanças. Sair de Belém foi o desencarnar de um corpo agonizante e pouca coisa me faz pensar em Belém de forma afetuosa, mas também lhe adornei de flores e desejos de frutos.Também construí meu projeto pessoal para Belém 400 anos. Nada ousado, apenas gostaria de presentear à cidade a edição do Marcos do Tempo, pesquisa de especialização homônima a este blog, sobre os monumentos de Belém, porém não aconteceu: assim como a gestão da cidade, minha vida também tomou outros rumos, também convivo com gaviões e cobras do lavrado que não me dão segurança no chão onde piso.
Expatriada, desnaturada, sem raízes, muitas vezes tida como aventureira ou corajosa, sigo vivendo a luta do tempo, com a certeza que não dou passos para trás. Belém é terra à qual devo muito do que sou profissionalmente e no amadurecimento, pelas conversas com idosos guardiões de sua memória, almas das coisas edificadas e que, muitos, se mantém visagentos em suas casas. São referências indeléveis, como as rugas e os cabelos brancos que tenho agora e que me aproximam ainda mais do senhor do chalé do Mosqueiro, da senhora do sobrado na avenida Nazaré, das irmãs do solar no Bairro do Marco, do baú de relíquias da Campina, da alma que pulsa na Cidade Velha.
Desses 400 anos, vivi pouco mais de 25, o que não é nada para a cidade, mas muito para mim, sendo esse "muito" algo que transita entre a plenitude e um enorme vazio. São quatro séculos de batalhas sociais que se repetem, sem dar definitivo poder aos cabanos ou à elite; são conquistas de espaços reconhecidamente impróprios; segue a cidade se apequenando como foi o desmembramento gradual de seu território;
Queria muito construir um texto heroico para homenagear Belém, apaixonado como do turista aprendiz, mas tê-la vivido, como vivi, intensamente, não me permite chupitar displicentemente um sorvete no terrace de seu grande ou central hotel. É de doer na alma ver os pássaros juninos em agonia e sem sequer direito à cuíra. É dor aguda pensar no risco que corre pelas ruas estreitas, como uma serpente. E nem tenho um Manoel Bandeira a quem endereçar essas palavras...
Belém, coragem! Os velhos estão cansados, os jovens não acreditam e os muito novos te desconhecem, contudo, quem sabe, esse barulho todo pelos seus 400 anos faça despertar a esperança e o desejo de lutar.