Tirando sossego até dos mortos
O descaso com a memória em Belém está há muito ultrapassando o limite do bom senso. A memória, essa matrona das Artes, Ciências e História está sendo profanada a cada dia, refletindo o descaso das autoridades e entes responsáveis por sua manutenção.
Um grande apagamento de memória vem sendo sistematicamente feito, como se lembrar de uma cidade próspera e culturalmente rica fosse doloroso demais para a capital do Estado do Pará. São os edifícios, os artistas, os monumentos, as formas de expressão populares e, agora, não contente de dilapidar as referências dos vivos, atacam-se os mortos.
O abandono antigo e sistemático do Cemitério da Soledade, anunciado com recursos para a sua recuperação, vem sendo posto à mostra há anos, seja a partir de pesquisas e publicações, como da arquiteta Paula Rodrigues, quer pela imprensa que destaca, de tempos em tempos, sua importância. A mim o tema cemiterial é muito caro, e devo parte do meu apaixonamento por Belém à transparência do gradil inglês do Soledade. Mas outros pesquisadores tem se debruçado sobre a temática, e não apenas sobre a pérola do Cemitério de Nossa Senhora da Soeldade. Outros conjuntos merecem respeito por seu valor material e referencial, sem contar a necessária reverência aos mortos. Ao menos deveriam.
Recebo um e-mail de uma grande amiga, Dulce Rocque, presidente da CiViva e defensora da memória histórica de Belém, que repassa a denúncia do abandono do Cemitério da Ordem Terceira de São Francisco, que vem sendo desmembrado para construções e tratado com descaso a ponto de suas capelas se se tornarem abrigo.
Jamais vou questionar o direito à moradia de quem quer que seja, nem de perturbar o sono (temporário ou eterno) de ninguém. Contudo há de se agir de forma coerente e competente, de acordo com a política pública que lhe caiba. Não é digno a quem precisa invadir um mausoléu para ter abrigo, nem àquele que lá está sepultado. Não é respeitoso com a memória, com a crença e sequer com a salubridade permitir esse tipo de uso. É insano compactuar com essa situação, se omitir frente a tamanha expressão de barbárie: e não estou falando daqueles que foram flagrados na tumba, mas dos que permitiram com o seu descaso, que isso fosse possível.
Desejo profundamente que algo seja feito.
Questionarão: mas você está morando em outro Estado e ainda se incomoda? Eu respondo: sempre me incomodarei quando a questão ultrapassar os limites (e não estou falando dos geográficos) em Belém, ou em qualquer outro lugar.
Um grande apagamento de memória vem sendo sistematicamente feito, como se lembrar de uma cidade próspera e culturalmente rica fosse doloroso demais para a capital do Estado do Pará. São os edifícios, os artistas, os monumentos, as formas de expressão populares e, agora, não contente de dilapidar as referências dos vivos, atacam-se os mortos.
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Registro do arquiteto Sérgio Lobato |
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Registro do arquiteto Sérgio Lobato |
Jamais vou questionar o direito à moradia de quem quer que seja, nem de perturbar o sono (temporário ou eterno) de ninguém. Contudo há de se agir de forma coerente e competente, de acordo com a política pública que lhe caiba. Não é digno a quem precisa invadir um mausoléu para ter abrigo, nem àquele que lá está sepultado. Não é respeitoso com a memória, com a crença e sequer com a salubridade permitir esse tipo de uso. É insano compactuar com essa situação, se omitir frente a tamanha expressão de barbárie: e não estou falando daqueles que foram flagrados na tumba, mas dos que permitiram com o seu descaso, que isso fosse possível.
Desejo profundamente que algo seja feito.
Questionarão: mas você está morando em outro Estado e ainda se incomoda? Eu respondo: sempre me incomodarei quando a questão ultrapassar os limites (e não estou falando dos geográficos) em Belém, ou em qualquer outro lugar.
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