Ausências

Um motivo suficientemente forte me fez sair da blogosfera: a minha mãe viajou para visitar o Papai do Céu. Ainda é muito difícil falar sobre isso. Quem não me conhece talvez encontre um tom diferente no que escrever, mas os que tem maior proximidade sabem que isso é uma capa protetora, uma fantasia, uma máscara...
Viajei também: fisicamente para o Rio de Janeiro e sentimentalmente para muitos lugares. Visitei alguns deles. Chamei de 'meu roteiro sentimental', que começou por rever um monte de anotações, cadernos, correspondências, fotografias, pessoas...

Eu hoje joguei tanta coisa fora
Eu vi o meu passado passar por mim
Cartas e fotografias gente que foi embora.
A casa fica bem melhor assim


Coisas que durante mais de vinte anos foram guardadas na casa da minha mãe, quando as vi na casa do meu irmão, joguei fora. Certas coisas perdem o sentido com o tempo. Outras passam a valer tão pouco em relação a outras perdas. Entre essas coisas, tem um objeto, que nunca foi entendido e sempre motivo de piada: um tijolo.
Esse tijolo foi um dos milhares que foram usados na construção do Laboratório Silva Araujo, recolhido num dia em que eu e minha amiga Fafi 'invadimos' suas ruínas, antes de lá contruírem um edifício. O Laboratório Silva Araujo, antes de se unir ao Laboratório Roussel e tornar-se S.A.R.S.A (Silva Araujo-Roussel Sociedade Anônima, agora Laboratório AVENTIS) produzia o Vinho Reconstituinte Silva Araujo, um dos produtos de exportação da indústria brasileira no início do século XX. Quem tem mais de cinquenta anos vai talvez lembrar do vinho Reconstituinte Silva Araujo, na prateleira da memória ao lado da Emulsão Scott, do Biotônico Fontoura e de algum remédio para verme que seria ministrado acompanhado da história do Jeca Tatu, de Monteiro Lobato.
Nessa época eu tinha há pouco me mudado da Rua Paulo Silva Araujo para a sua transversal Rua Santos Titara. Paulo também era o nome de meu pai, químico que trabalhava no CENPES da Petrobras, em laboratório com pesquisa petroquímica. Entre as várias coisas que deixei no Rio de Janeiro (livros, fotografias, objetos de decoração), minha mãe sempre zelou por esse tijolo, como se ele representasse a minha presença, tanto que os livros, fotografias e objetos de decoração foram, pouco a pouco, desaparecendo do meio de meus guardados. Mas, pelo tijolo, ninguém se interessou. Ninguém sabia o quanto ele significava.
O tijolo ficou em Cabo Frio. É uma promessa de retorno.
Outras bobagens sem sentido foram fotografadas. Sempre digo que se eu sou uma arquiteta com interesse viceral em patrimônio histórico, se deve a uma viagem em que meu pai colocou toda a família no fusquinha azul para fazer o circuito das cidades históricas. Ouro Preto, vocês já sabem, tem um valor especial e referencial para mim, mas que vai além da lógica. Por isso eu sempre buscarei nas ruas de Ouro Preto as imagens das xilogravuras, meus ângulos que não são meus, mas que sempre estiveram presentes na minha vida como mais concretos que as paisagens reais. Em São João Del Rey tentarei sempre identificar Daniel e Naum, embora a miniatura do primeiro não exista mais na casa da minha mãe. Minha mãe também não está lá.

Comentários

mateus disse…
Caramba eu nem acredito que eu morei em um prédio que já fio do laboratório SARSA.(o prédio fica na Rua do rocha bairro rocha n°45 Rio de Janeiro) agora esse prédio é da empresa Farmacêutica Panarello. Nesse prédio eu encontrei remedis lacrados muito antigos, tinha documentos propagandas muitas relíquias, e pensar que eu jogava tudo isso no lixo e não dava nem uma importunância.
Paulo Mauricio disse…
No meu caso tenho uma espécie de bloqueio que, se não me bloqueia o retrovisor, tem me impedido olhar o passado com maior atenção. Tudo parece acontecer num turbilhão de acontecimentos e emoções que feliz ou infelizmente têm bloqueado meu inteiro ser, numa espécie de analgésico que me deixa meio aéreo ao passo que ameniza minha dor. Chorei a perda de minha sobrinha, como eu não consegui ainda chorar a de minha mãe, Talvez por receio de olhar de frente esta perda ou quem sabe porque esta perda me fez olhar as coisas como realmente eram e com isto passei a focar à frente e não no passado; permito-me apenas chorar o passado na medida que as fotos vão trazendo ele de volta.

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