Tempo de delicadeza

Enquanto todos estavam falando no fim do mundo, um pai tinha insônia porque sua filha, esperada por nove meses, estava para nascer. Esse pai, talvez estivesse mais tenso que outros pois, por ser pessoa sensível, se envolveu com outra gravidez onde um pequeno bebê sofre por não conseguir passar os mesmos meses de conforto com a mesma saúde de sua filha. Quem não fica inseguro? Que pai não pensa no futuro, ainda mais alguém que envolve com carinho nas dores das mães que lutam pela saúde de seus filhos? Por mais que se tenham exames, ver, ter, pegar, lamber a cria... tudo que se quer.
Não, o mundo não iria acabar! Iria nascer Letícia. E ela nasceu linda, como também nasceu Alice, filha de artistas. Quase gêmeas, se não fosse o fato de serem de pais diferentes geneticamente, mas irmãos em beleza e sensibilidade. Muitas outras crianças nasceram naquele mesmo hospital, outras histórias, enfeites de porta, roupinhas diferentes. Algumas ganharam presentes, alguns até repetidos.
Impossível descrever tudo desta imagem, mas resume muito de minha história
Na década de 1960 uma menina nasceu e ganhou duas bonecas iguais. De quem, onde foram compradas, isso se perdeu no tempo, mas sua avó guardou a boneca repetida - se apaixonou pelo rostinho delicado de borracha, suas bochechas com vermelho do sangue que lhe passa na camada de látex. Mesmo a história ficou esquecida, no fundo de um armário, mas com zelo de quem sabia que iria viver quase cem anos e que aquela recém-nascida iria no futuro ser mãe de uma menina: ela iria dar novamente a boneca à sua bisneta. A vida muda, as pessoas mudam, mas o que é moldado nos olhos verdes da esperança, acontece. E a primeira mulher nascida na família após esse momento de fábula é a bebê-da-bebê, vinte e cinco anos depois, recebe aquela bonequinha de olhos vivos, sorriso, carregando um ursinho. Após outras bodas, a boneca parece ter perdido um pouco do viço, o rubor do rosto e até parece ter um certo cansaço nos olhos. Mas delicadezas se renovam.
Essa menina nascida em 1990 ganhou do pai seu primeiro brinquedo, um cachorro de pano comprado na Mesbla, que ainda resiste às inúmeras cirurgias que lhe dão sobrevida. Se tornou professora e bailarina, e ganhou de alguém que não a conhece pessoalmente (mas que admira seu talento) uma ratinha bailarina costurada a mão, de Natal.
Outro amigo coloca no Facebook o seu ratinho de borracha canhoto, com uma bola colada ao pé: seu primeiro brinquedo. Gerações que construíram mundos, naves, castelos em suas peças de Lego e Playmobil talvez tenham saudade de seus cubos, que foram varridos, perdidos em quintais ou jogados pelas janelas dos apartamentos. Há a esperança que tenham sido doados a outras crianças que lhe passaram a dar valor, assim como as bonecas guardadas carinhosamente que, ao serem passadas para as novas herdeiras (primas, sobrinhas, aquelas a quem delegamos nossas memórias impregnadas nos brinquedos), porém é provável que as doadoras tenham sido questionadas ao receber qual efeito especial elas tem embutidas, onde se coloca a pilha ou coisas assim. Pobres gerações que não sabem o valor de um boneco de pano e seus detalhes únicos, que não prezam o apito que faz o boneco de látex gritar fi... fi-fi... fiiiiiiiii...
A vida é cheia de presentes, alguns que ganhamos e nem sabemos, não temos consciência ou simplesmente não damos atenção. Presentes delicados, imperfeitos, raros, frágeis, todos eles. Sim, todos acabamos perdendo - o momento, o gesto, a intenção - mas fica a matéria, suas histórias, que passam a ter outro significado. Dar outro significado é renascer, reviver, mas atribuir significado e história é dotar de atributo único. Sim, a gente guarda e também perde. Algumas coisas/pessoas ficam, outras perdemos, e isso não significa que não a demos valor, mas que sua história foi diferente. Mesmo que a matéria se vá, o sentimento que as une e as mantém na memória é mais firme que tudo.

Comentários

RO Galindo disse…
Amei!!! o texto é muito delicado quando fala das sutilizas dos sentimentos que envolvem nossa infância carregando, de estórias as páginas do nosso livro da vida, as páginas que valem sempre apena reler ...

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