Belém: cidade do futuro

Embora muita gente não saiba, Belém é uma cidade precursora em muitos aspectos, especialmente tecnológicos. Associa-se Belém à natureza amazônica intocada, à força mítica de seus valores culturais, e muito pouco se sabe da sua história. Contudo, o influxo econômico da economia do látex fez de Belém, entre o XIX e início do século XX, um pólo de desenvolvimento cultural, permitindo essa característica entre a tradição e a inovação.
Talvez àqueles que moram em Campinas, apenas, além de parcela da população belenense saiba que o maestro Antônio Carlos Gomes autor, entre outras peças, do ícone “O Guarani” (aquela musiquinha da abertura da Voz do Brasil...) viveu e morreu em Belém, tendo criado um dos principais conservatórios de música do Brasil.
Júlio Cezar Ribeiro de Souza, “O Homem do Balão Extravagante”, foi um típico caboclo do interior, nascido em família pobre, na cidade do Acará, em 1843. Entre suas várias atividades, todas pelas quais foi esquecido, o desenvolvimento da tecnologia de dirigibilidade dos balões foi certamente a sua maior luta em vida. Fez várias palestras e manifestos para defender a tese de que ele, e não os capitães franceses Charles Renard e Arthur Constantin Krebs, havia desenvolvido todo o sistema tecnológico do balão dirigível. Seu pecado foi não ter conseguido recursos suficientes para garantir o desenvolvimento de sua pesquisa.
Antes mesmo de Gustave Eiffel ter seu nome marcado na história com a construção da torre, símbolo de Paris, em 1888, teve uma obra instalada em solo paraense. Inaugurada em 1884, a Caixa D’Água de Ferro, do bairro de São Braz, com material trazido através da Casa de Comércio Tony Dussieux, de Paris. Era prática corrente a importação de produtos, materiais de construção, especialmente estruturas metálicas a época, o que faz Belém trazer a chamada Arquitetura de Ferro, entre seus ícones. Vide o Mercado de Ferro do Ver-o-Peso, símbolo de Belém!
Francisco Bolonha, decano da engenharia e da arquitetura do Pará, autor de obras do ecletismo como o Palacete Bolonha, Mercado de Carne, os Quiosques (dos quais só resta o do Bar do Parque), estudou e se formou em Paris, tendo trabalhado com o mesmo Gustave Eiffel.
Outro momento artístico que teve Belém como cenário foi a passagem de Ismael Nery. Ou melhor, seu retorno à terra natal, acontecendo em Belém a primeira exposição surrealista do Brasil, em 1929, montada no hall do Palace Theatre, do antigo Grande Hotel. A mostra teve aceitação de parte da intelectualidade, ligada à estética modernista, especialmente Eneida de Moraes e Bruno de Menezes, que souberam valorizar e compreender a genialidade do pintor.
Poderíamos citar outros exemplos, mas de que podemos tirar de tudo isso? Antes de tudo que há um grande desconhecimento da nossa história local, ainda mais da visibilidade desta para além das fronteiras. Há muito preconceito em relação ao conhecimento amazônico. Mesmo um caboclo do interior, da beira do rio, em seu casquinho de tronco de árvore, tem sonhos, e sonhos não têm limites. Que o dinheiro (ou a falta deste) podem ser determinantes para o desenvolvimento da pesquisa e da tecnologia. E, talvez o mais importante àqueles que querem se aventurar na fronteira-norte: nem sempre o reconhecimento vem de imediato.

Um comentário:

Marina Nascimento disse...

É que eles têm medo de tropeçar nos jacarés e de encontrar índios de tanguinha pulando em árvores...