O que importa realmente

Eu sou uma pessoa de muitas amizades e poucos amigos. Talvez seja muito exigente comigo mesma, com as pessoas e com as coisas em que acredito. Isso transpassa pelas escolhas profissionais e afetivas. Gosto de muita coisa, faço muita coisa, tolero muita coisa, mas me dedico a poucas coisas. Assim como às pessoas.
Posso dizer que sou quase feliz atualmente. Tenho alguns "traumas" antigos que estou superando. Um deles é o desejo de trabalhar com partimônio cultural. Sempre digo que a culpa de tudo foi do meu pai: ele gostava de, em qualquer oportunidade, meter toda a família no carro e viajar. No início da década de 1970, num fusca azul-marinho, fomos conhecer as cidades do ciclo do ouro mineiro. Será que alguém consegue imaginar o que seja, para uma criança que nem sabia escrever o nome, ter contato com o barroco mineiro? Centenas de Senhores-Mortos? A expressividade teatral da imaginária, enriquecida pelo urbanismo colonial de ladeiras e largos... Ouro Preto, especialmente, é um problema kármico na minha vida! Lutar pela preservação desses registros materiais e referências virou minha militância pessoal. E, apesar da batalha inglória contra as pressões mercadológicas, contra a inconsciência, mesmo da classe profissional dos arquitetos, tenho juntado nos meus bolsos fiapos de conquistas que, um dia, espero tecer, se não uma manta que me abrigue, um lenço pra enxugar o suor da luta.
Pessoalmente tenho me cercado de belezas humanas. Reafirmado que a minha vocação pela manutenção de referências é, possivelmente, a minha principal característica. As pessoas são marcos fundamentais, sem os quais não sei viver. Ao preservar as pedras das casas, as quero como estrutura do abrigo de seres e histórias. Quero ter a lembrança dos espaços não pelas cores, texturas ou dimensões, mas através da memória afetiva, das vivências. Os amigos, para mim, nunca envelhecem e jamais morrem. Minhas relações de afeto transcendem a materialidade, o espaço e, agora tenho certeza, ao tempo. Tenho fé nos meus amigos, suas conquistas são também minhas. Posso até não conseguir o desenvolvimento acadêmico que almejo, mas o reconhecimento profissional de um amigo é como se fosse meu; peço licença pública por tomar carona do orgulho de suas conquistas!
O que me importa, realmente, é me emocionar com uma exposição de arte, é me arrepiar ouvindo uma música, é guardar um abraço a beira de um lago de vitórias-régias, são as histórias que só existem na memória dos idosos. São os segredos, idéias e suores compartilhados. O que importa são as pessoas que estiveram presentes, configurando o que sou hoje.

Comentários

eu ainda não terminei de ler esse post, to de saida. Mas tem uma coisa martelando na cabeça....
como é ter muitas amizades e poucos amigos?

beijos
Marcos do Tempo disse…
"Amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração. Assim falava a canção..." (Canção da América - Milton Nascimento > nosso parente!rsrsrs)
Amizade é um tipo de amor, digamos, genérico, é um bem-querer. Nós não fazemos qualquer coisa pela amizade, mas pelos amigos... eu, pelo menos, dou a vida, se preciso!

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