Entre o Presidente e o Imperador

Meus avós paternos dividiam a sua vida entre a Praia do Flamengo e Petrópolis. Do apartamento da Praia do Flamengo me lembro ter visto o desfile da seleção de 1970 e a Jules Rimet. Da sacada do edificiozinho art-decó, de sete pavimentos pavimentos, já naquela época transpirando décadas, me lembro do meu pai contando a história dos vários aterros da Praia do Flamengo, desde a época em que ele, ainda jovem, para chegar à praia, atravessava apenas uma pista. A uma quadra do Palácio do Catete, tendo como fronteiras as Ruas Silveira Martins e do Russell, onde ficava a saudosa Manchete. Meu avô acompanhou a comoção popular do suicídio de Getúlio Vargas. Não sabia, àquela época, quem teria sido Getúlio Vargas, mas sabia que passávamos pela Avenida Presidente Vargas - enorme, coroada pela Igreja da Candelária, onde aconteciam coisas muito importantes, como o desfile da Portela. Gostava de desenhar aquele prédio, tão importante para mim, espremido entre o Hotel Novo Mundo e outro edifício (se não me engano, este tinha um enorme portão de ferro com medalhões dourados), como uma pérola ladeada pelas conchas da ostra.
Não tenho lembranças da infância passeando por aquela área, não a partir do apartamento do vovô. Nasci em Botafogo, embora vivido sempre no subúrbio. Tenho lembranças do Largo do Machado, do Parque Guinle, muitas do Aterro do Flamengo, mas como extensões de outros roteiros. Minhas lembranças do Flamengo são noturnas e modernas.
Lembrar do meu avô é articular Flamengo e Petrópolis.
Ir a Petrópolis era um caminho natural. Em duas horas, o velho fusca azul vencia a distância, com toda a família. Eu era pequenina, meu irmão um ano mais novo. Meus irmãos mais velhos eram adolescentes e controlavam o banco de trás.
A longa viagem, que passava sempre em frente à Fazendinha, na estrada Rio-Petrópolis. Na minha infância, a Fazendinha já era um resto de uma história antiga, que logo se tornou disputa de herdeiros, logo após a morte de meu avô. Mas revivo histórias de festas, de encontros, contadas e recontadas, em fotografias e lembranças da minha mãe. Impossível não parar e comer um croquete do Alemão: nunca provei nada parecido e tenho medo de não poder compartilhar o que era aquela textura e sabor, por isso abstenho-me de tentar descrever.
Uma das minhas mais gratas lembranças de infância é Petrópolis. Passar em frente ao Quitandinha era a senha de que a etapa dos zig-zags e nevoeiros da velha estrada tinha acabado. O cheiro frio do ar de Petrópolis me entrava pelos pulmões.
A figura elegante do meu avô, João de Campos, que já saía do quarto de terno e gravata, enquanto eu e meu irmão ficávamos brincando de dominó de bichinhos no chão do corredor, de pijama de flanela e meia. A minha avó, Hilda Cristina Loureiro de Campos, como boa sogra que era, dando cubos de açúcar embrulhados em papel azul fechado com um selo, escondida da minha mãe. A cidade, um grande jardim, cheiroso e florido, onde passeávamos de charrete. A casa, ímpar, de Santos Dumont, com sua escada e outras invenções. E a casa da Família Imperial, museu onde tínhamos que calçar enormes pantufas de feltro. Petrópolis não só significava o destino de um longo passeio, mas tinha a aura da história, da nobreza, de um clima diferente do Rio.
Interessante saber que o Museu Imperial foi criado, em 1943 pelo mesmo Presidente Getúlio Vargas!
Profissionalmente, décadas depois, pude estudar e reconhecer o eficiente trabalho museológico do Museu Imperial. Aprendi a admirar a construção da Nova Museologia a partir da visão de Maria de Lourdes Parreiras Horta, mãe da Educação Patrimoial do Brasil.

Esse texto eu dedico ao meu avô, modelo de homem ético, decente e elegante e à Maria de Lourdes Parreiras Horta, por quem compartilho minha admiração pela contibuição à história da construção de uma nova mentalidade nos museus brasileiros. Incondicionalmente, sem buscar méritos ou fatos, a ela, ex-diretora do Museu Imperial, exonerada do cargo, meu apoio.

Comentários

Eu sou apaixonada por história, por fatos histórios,pessoas e peças... Tudo que possa me trazer um pouco do que já foi pra que tá sendo (entende?)
Deve ser muito bom trabalar e conhecer tudo isto e melhor ainda é poder ter vivido um pouco, tocado - mesmo que bastente anos depois. Mas só por estar perto já é grande coisa.

Adorei o texto, dificilmente um texto grande me atrai, mas esse foi tão gostoso de ler.
beijos
Paulo disse…
Muito bom. Que viagem. Petrópolis... Catete...
Pensar que eu vivi isso também e peguei ônibus naquelas pistas antes de existir o aterro; e corri das galinhas na “fazendinha”.
Belo trabalho mana!!

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